Cravejo

Cinco ilhas

Até ao século XVI o craveiro crescia num só lugar da Terra: em algumas ilhas vulcânicas das Molucas — Ternate, Tidore, Moti, Makian e Bacan. Tudo o que se sabe do cravinho a partir daí decorre dessa única circunstância.

E, ainda assim, na cidade de Terqa, nas margens do Eufrates, os arqueólogos encontraram cravinhos numa casa datada de cerca de 1720 a. C. A quase dez mil quilómetros do único sítio onde cresciam então, e três mil e quinhentos anos antes de a Europa descobrir de onde os traziam.

Quem o descobriu primeiro foi Portugal. A partir de 1512 as cinco ilhas deixaram de ser um rumor de Malaca e passaram a ser um destino com rota, forte e contrato — e o cravinho, durante seis décadas, saiu de lá em navios portugueses.

equador Halmahera N Ternate Tidore Moti Makian Bacan para Malaca e Lisboa 100 km
A única área de distribuição do craveiro antes da era colonial. Costa ocidental de Halmahera, Molucas do Norte

Crónica de uma especiaria

Entre a primeira e a última linha há três mil e setecentos anos, e durante quase todo esse tempo o cravinho continuou a ser o mesmo botão das mesmas ilhas.

c. 1720 a. C.

Cravinhos numa casa de Terqa, nas margens do Eufrates: o achado mais antigo que se conhece fora das Molucas.

c. 200 a. C.

O tratado chinês «Han guan yi» descreve o costume: antes da audiência com o imperador, o funcionário segura um cravinho na boca.

Em chinês chamam-lhe especiaria de língua de galinha, pela forma do botão.

século I

Os cravinhos chegam a Roma. De onde vêm não o sabe ninguém na Europa, e não o saberá durante mais mil e quinhentos anos.

1495

A nau dinamarquesa-norueguesa «Gribshunden» afunda-se ao largo da costa sueca com cravinho a bordo: o achado mais antigo desta especiaria no norte da Europa.

1512

Um ano depois da tomada de Malaca, Afonso de Albuquerque manda procurar as ilhas das especiarias. A armada de António de Abreu chega em 1512; o seu segundo, Francisco Serrão, fica em Ternate.

De lá, Serrão escreve ao primo Fernão de Magalhães sobre as ilhas. Foi essa carta que acabou por levar Magalhães a procurá-las pelo ocidente.

1522

A 24 de junho, dia de São João Batista, os portugueses levantam em Ternate o forte de São João Baptista, junto à casa do sultão — e daí lhe veio o nome.

O que começou por ser uma feitoria passa a tratado: Ternate fica obrigada a vender a especiaria aos portugueses pelo preço mais baixo possível.

1529

Tratado de Saragoça. Carlos V vende a D. João III a pretensão castelhana sobre as ilhas das especiarias por 350 mil ducados de ouro, e volta a atenção para as Filipinas.

No papel, as Molucas ficam portuguesas.

1575

Depois de um cerco de cinco anos, os portugueses saem de Ternate. O forte muda de mãos e o negócio do cravinho também.

século XVII

A Companhia Neerlandesa das Índias Orientais tenta fechar o cravinho como fechou a noz-moscada.

Com a noz-moscada conseguiu: crescia num punhado de ilhas Banda. Com o cravinho não — as árvores estavam demasiado espalhadas pelas Molucas para se poderem vigiar.

1770

Os franceses tiram enxertos de Ternate, de uma árvore chamada Afo que tinha então entre 350 e 400 anos.

Chegam às Maurícias e às Seicheles, e daí à Guiana Francesa, à Martinica e a São Domingos. O monopólio acabou.

hoje

A Indonésia é o maior produtor do mundo, mas só exporta entre 10 e 15 % da colheita.

O resto fuma-o o próprio país: o cravinho vai para os kretek, os cigarros locais misturados com tabaco.

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